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16 de Março de 2013

Primeira mulher indígena a se tornar Oficial do Exército Brasileiro

 

A Tenente do Exército Brasileiro, Silvia Nobre, 36 anos, foi a primeira mulher de origem indígena a se tornar militar no Brasil. Nascida na aldeia da etnia Wajãpi, no Amapá, Kayne, seu nome de origem. Ela sofreu um acidente aos 3 anos de idade e foi levada a cidade de Macapá, onde operou e acabou sendo adotada por um casal, que a registrou como filha, com o nome de Silvia Nobre Lopes. Ela cresceu e foi para a escola estudar, onde o sonho de hastear a bandeira nacional não foi realizado, uma vez que só as crianças brancas e de origem não indígena podiam participar do ato cívico. Na escola ela descobriu o gosto pela literatura. Em uma festa para o Dia das Mães, as crianças criaram e declamaram pequenas estrofes de poesias, foi quando Silvia revelou o seu dom pela arte.
Indicada por um vizinho, irmão do proprietário do “Jornal do Dia”, Silvia foi trabalhar como datilógrafa no periódico. Logo depois, passou a auxiliar alguns jornalistas na busca por notícias, quando em uma cobertura de evento conheceu o então Governador do Amapá, Jorge Nova da Costa, que a convidou para trabalhar na Rádio Difusora de Macapá, como repórter e locutora mirim.
Mas Silvia queria conquistar outros espaços. Com a intenção e o sonho de estudar mais, resolveu seguir para o Rio de Janeiro. No dia 22 de fevereiro de 1990, Silvia chegou ao Rio de Janeiro. Da Rodoviária foi direto morar nas ruas com a filha. Dois meses depois conheceu um camelô que ofereceu a casa da sobrinha para morar. Ela conseguiu alguns livros para vender de porta em porta, até conquistar um
emprego no Círculo do Livro.
Por meio do gosto pela literatura e com o novo emprego, ela conheceu alguns poetas dos quais se tornou amiga, passando a freqüentar as reuniões da Associação Profissional dos Poetas do Estado do Rio de Janeiro – APPERJ, no Teatro Vila Lobos, em Copacabana. Incentivada a estudar, foi cursar Artes Cênicas na Faculdade da Cidade, em 1994. Um ano depois, descobriu sua outra vocação na área da saúde, e foi fazer Instrumentação Cirúrgica no Curso MITOS, em paralelo com as Artes. Estagiou e trabalhou no Hospital Souza Aguiar na equipe de Cirurgia Infantil, até que, em 1998, concluiu a sua primeira formação.
Em 1999, Silvia Nobre foi exercer a profissão artística na Rede Globo de Televisão. Mas não parou por aí: a atriz Silvia Nobre também descobriu no atletismo uma outra habilidade. Em 2001 ela passou a correr todos os dias na Ilha do Governador, bairro onde morava e incentivada por um amigo, Silvia se tornou atleta do Clube Vasco da Gama, no ano de 2003.

A prática do esporte, a experiência anterior em saúde e a bolsa de estudos que ganhou da patrocinadora num dos campeonatos em que participou, foram requisitos para a índia Wajãpi iniciar, finalmente, a sua formação em Fisioterapia pelo Centro Universitário Augusto Motta – UNISUAM. No mesmo período, foi cursar “Política e Estratégia” na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG, quando montou o Projeto de Monitoração de Atletas para o CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes da Marinha do Brasil). O trabalho foi desenvolvido com os atletas Fuzileiros Navais até 2009.
No período de 2004 a 2006, foi chefe do Departamento de Estudos e Pesquisa da ADESG, na Presidência do Dr. Américo Chaves. Formou-se em Fisioterapia em 2007, e no ano seguinte, foi condecorada com a Medalha Amigo da Marinha, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao Corpo de Fuzileiros Navais.
O convívio no meio militar foi o incentivo para que Silvia se inscrevesse no processo seletivo do Exército em 2009, mas na primeira oportunidade não foi convocada. Em 2010, pensou em desistir da carreira militar e voltou a estudar, realizando o curso de Gestão Hospitalar na Universidade Estácio de Sá.
Em julho, surgiu uma nova oportunidade de se inscrever para o Exército e também para a Marinha. Silvia então retomou o voluntariado para o serviço militar. Quando foi aprovada, para ambas as Forças, optou pelo “Verde Oliva”, que mais próximo está de suas origens. Enquanto realizava e passava pelas etapas do processo seletivo, Silvia também aproveitou para iniciar mais dois cursos de especialização: Saúde Pública na UFF (Universidade Federal Fluminense) e Gênero e Sexualidade na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Após realizar a primeira fase do Estágio de Serviço Técnico no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR-RJ, formou-se como Aspirante a Oficial, no início de 2011. A fisioterapeuta foi nomeada para concluir a outra etapa no Hospital Central do Exército – HCE, onde serve voluntariamente como profissional de saúde até hoje.
Em agosto de 2011, a Aspirante a Oficial foi graduada ao primeiro posto de oficial, como 2º Tenente. De acordo com a sua trajetória profissional, poderá ser promovida a 1º Tenente em 2014, permanecendo por até oito anos no Exército Brasileiro.
Silvia foi mãe pela primeira vez aos 13 anos de idade, da menina Ydrish Tanzkaya. Casou-se em 1991 com Carlos, tendo mais dois filhos, Tamudj
im e Yohana,
divorciando-se em 1999.
Mas o Exército, além de se inserir na vida profissional de Silvia, também trouxe novas conquistas para o coração: ela conheceu o também militar do EB, Coronel Alencar, com quem está casada.  Silvia Nobre percorreu um longo e sinuoso caminho antes de se tornar a pioneira no meio militar. Mas a união entre sonho, vontade, determinação, vocação e experiência foram os ingredientes para que, hoje, a Oficial possa hastear o Pavilhão Nacional com o mesmo orgulho, amor e lágrimas que existiam nos sonhos da pequena índia Kayne.

(HCE Com Soc Ana Ferraz – 1º Ten OTT / FM)